quinta-feira, 7 de julho de 2011

Entrevista a Maria de Jesus Reino por Nídia Faria

Com experiência na área financeira e de gestão, Maria de Jesus Reino dedica-se actualmente ao Marketing, e foi aí que desenvolveu a sua vertente criativa. Há cerca de sete anos, a sua paixão por pintura tornou-se um hobby que cada vez mais se emancipa, tendo já conquistado espaço nas Amoreiras, no Colombo e no Oeiras Parque. De momento, o palco é outro: a AZO, onde permanecerá de dia 16 de Junho a dia 20 de Julho.

“Devemos pintar com toda a liberdade para expressar o que somos e o que sentimos”

Nascida em Moçambique, o berço das suas cores, Maria Reino esteve ligada desde pequena a artes. Possui, por isso mesmo, um instinto nato para criar e uma preocupação estética muito viva. Os lápis de cor, os livros de pintura e mais tarde as visitas a galerias e a museus foram-lhe aguçando a curiosidade e o gosto pelo mundo artístico. As suas preferências recaem sobre hoje abstraccionismo e expressionismo, sendo que este segundo dá contorno à sua última mostra, Tons do Mar.
Barcos à vela irrompem por entre a espuma e as ondas marinhas, quase se escapando da tela. Trata-se de um mar que não espelha o céu e de um céu rosado, sempre colorido de nuvens. Cascais, o Guincho e o Bugío são os cenários marítimos retratados pela artista. A mescla cromática passeia entre azuis e verdes, numa hipnotize que exala tranquilidade. Apenas as velas coloridas e a rebentação das ondas quebram a calmía do manto azul, estendido até ao horizonte. É o temperamento fluído do oceano que dita o movimento implícito na sobras, parecendo que os barcos à vela não se desafiam uns aos outros, mas às águas que atravessam.

1.     Maria de Jesus nasceu em Moçambique. Em que cidade cresceu?
Nasci em Lourenço Marques, agora Maputo, onde vivi até aos doze anos. Depois, vim para Portugal.

2.     Foi em África que encontrou inspiração para começar a pintar, ou esse interesse veio mais tarde?
Sempre me atraíram muito as lojas de lápis de cor e tintas e sempre gostei muito de pintar e de ter coisas para pintar. Nunca me passou pela cabeça, apesar disso, ter uma actividade artística mais séria. Em África apercebia-me das cores, dos diferentes ambientes, das coisas bonitas, e comecei a treinar o meu poder de observação. Desde miúda que sempre gostei de pintar pedrinhas, de fazer caixinhas, colares, de todo esse tipo de coisas. Descobri mais esta minha veia artística quando os meus filhos eram pequenos e comecei a organizar as festas de aniversário, desenhando e fazendo os seus bolos e as decorações. Ainda hoje, quando dou um jantar, adoro dedicar uma boa parte do tempo à decoração dos pratos, da mesa e das flores.
A pintura fez parte de uma sequência de acontecimentos que contribuíram para o desenvolvimento da minha expressividade e da minha criatividade.

3.     Cursou Economia na Universidade Católica, em Lisboa. Nunca pensou em mudar de área?
Quando me apercebi que o curso de Economia era muito teórico para mim ainda pensei
mudar para Gestão, mas optei por terminar o curso e depois seguir uma área um pouco diferente, mais prática e criativa, o Marketing .

4.     Quando e como encontrou tempo para a pintura?
Quando comecei a trabalhar, eu tinha uma colega pintora. Eu achei aquilo fascinante, mas nunca me imaginei a fazer o mesmo. Achava espectacular como ela tinha um trabalho tão absorvente e, à noite ou ao fim-de-semana, ainda conseguia pintar. Eu, nessa altura, estava preocupada em começar a carreira, em mantê-la, por isso a pintura mais a sério começou muito mais tarde.
Antes de agarrar um pincel pela primeira vez, há cerca de sete anos atrás, fui vivendo a arte como espectadora. O meu pai tinha muitos livros de pintura em casa. Comecei a frequentar museus, galerias e feiras de arte. Por exemplo, há mais de 20 anos que, quando posso, vou a Madrid a uma enorme feira de arte, o ARCO.

5.     Aprendeu a arte de pintar com António Marques, Oscar Baeza e Saul de Carvalho, no Arco e no Centro Cultural de Algés. Continua com as aulas ou já parou?
Eu comecei com uma professora de pintura. Fiz um ano em desenho com Saul de Carvalho, depois estive três anos a aprender com Oscar Baeza, no Centro Cultural de Algés, e, no Arco, participei num curso sobre figuração, onde fiz desenhos de corpos nus, com modelo vivo. Hoje, continuo esporadicamente com este último professor.

6.     Pinta há quanto tempo?
Pinto há cerca de sete anos, mas há uns cinco é que comecei a levar a pintura mais a sério.

7.     Consegue pintar em qualquer lugar e com barulho em volta?
Consigo. Aliás, quando está bom tempo, sabe onde prefiro pintar? No jardim da minha casa. Monto lá as telas.

8.     Quando pinta paisagens, procura fazê-lo no local ou a partir de uma fotografia?
Por uma razão prática, recorro muito à fotografia, até porque gosto de pintar quadros grandes, e não é muito prático transportar as telas.

9.     Tem, portanto, preferência por quadros grandes.
Sim. Quando pinto quadros abstractos, arrisco-me em telas maiores. Já pintei para uma amiga uma tela abstracta de três metros. Já em figuração, ainda não me arrisquei a pintar telas grandes, mas hei-de experimentar.

10.  O que é mais importante para si quando pinta?
O essencial é expressar-me. Pintar é materializar sentimentos. Eu não pinto no local por uma questão prática, como lhe disse, mas gosto de tirar notas, de estar num sítio e esboçar aquilo que vejo. Ou ando com a máquina fotográfica e tiro fotografia à paisagem, às pedras, às cores e às texturas, que tento expressar nas minhas pinturas abstractas.

11.  O que a diverte mais: o expressionismo ou o abstraccionismo?
Às vezes tenho dois ou três trabalhos a meio, e pego naquele que na altura me apetecer. Não sei. Considero que a minha onda, mesmo quando figurativa, adquire um traço irregular, de contornos esbatidos. Gosto de pintar barcos e fazer sair a cor das velas com o vento… No fundo, o expressionismo das cores mescla-se com o abstraccionismo dos contornos, sempre esbatidos.

12.  O que é a arte?
Arte é a materialização de uma sensação bonita, que me traz bem-estar e que me dá vontade de representá-la. Pode ser também algo visível, palpável até.

13.  Então, a sua arte surge apenas de algo bom, bonito, e nunca de algo angustiante, feio ou assustador.
Exacto. Imagine uma sensação chata, horrível. Nunca me apeteceu pegar numa dessas sensações e transformá-la numa obra. Nunca tive essa necessidade de fuga. Tem de me dar prazer. Pintar é a minha meditação!

14.  Pinta para si e por prazer. Isso quer dizer que não cria a pensar nos espectadores?
Talvez pela minha experiência em Marketing eu tenha facilidade em compreender o gosto das pessoas. Calçamos os sapatos do consumidor, como se diz. Já fiz um ou outro trabalho personalizado, em termos de tema e de cores, mas sempre à minha maneira. Se eu conhecer a pessoa, consigo criar algo que me dê muito prazer e que, simultaneamente, se encaixe nela.

15.  Pretende fazer disso um hobby ou um trabalho mais sério?
Até há bem pouco tempo era apenas um hobby. Mas as coisas vão evoluindo e passei a dedicar mais tempo e energia à pintura. Isso permite começar a ter um trabalho mais consistente e começou a fazer sentido expor e vender. Aí, surgiu a Passpartout, onde fiz a minha primeira exposição.

16.  Já expôs nas galerias Passpartout das Amoreiras, no Colombo e no Oeiras Parque. Porém, no dia da inauguração da sua exposição aqui, na AZO, disse-me que esta era a sua primeira.
É que essas galerias fazem exposições colectivas, onde vários artistas expõem. Esta, Tons do Mar, é a primeira exposição só com obras minhas.

17.  Como surgiu a oportunidade de expor na AZO?
Quando achei que já tinha trabalho suficiente, comecei há procura, e vim à AZO. Falei com o Carlos, ele foi ao meu atelier e gostou das minhas obras. Recebi o convite para expor neste espaço as obras que tinham a ver com o mar, que calhavam bem por causa do Verão, e aceitei.

18.  A temática a que se dedicou é bem focalizada: o mar. Retrata essencialmente Cascais, Gincho e o Bugío. Porquê este tema?
Primeiro, porque para mim o mar tem um significado muito importante. Nasci e sempre vivi ao pé do mar. Ao fim-de-semana acordo e vou tomar café na praia ou passear no paredão. É um dos meus passatempos preferidos. Adoro a linha de Cascais e ando sempre com a máquina fotográfica atrás para captar as nuvens, a água, e fico cheia de vontade de pintar o que vejo. Também pratico vela, desde os vinte anos. Houve uma época em que fazia regatas como o meu marido.

19.  Entretanto, começou neste mês de Junho a dar aulas de pintura no Alegro com o apoio da AZO. Partiu de uma iniciativa sua, novamente, ou de um convite?
Foi uma proposta, e eu até comecei logo a dizer que não. Não me considero professora de pintura. Mesmo assim pensei que, se calhar, aquilo que já sei poderia transmitir. Acabei por aceitar e foi uma experiência muito interessante. Acho que ajudei as minhas alunas a descobrir um pouco do prazer de ter um momento criativo, só nosso. Ficaram todas com vontade de continuar a pintar.

20.  O que tem aprendido?
Quando dou aulas, noto que duas pessoas podem pintar a mesma imagem, mas estas ficam sempre diferentes. Devemos pintar com toda a liberdade para expressar o que somos e o que sentimos. Vale tudo!

21.  O que planeia ou prevê para um futuro próximo?
Em Outubro, num espaço e projecto familiares, vou abrir uma galeria para expor trabalhos de diversos artistas. Além disto, como tenho também muitos amigos que gostam de pintar, vamos criar um espaço de pintura e de convívio.

22.  Enquanto pintora, apesar de ter um reinado ainda muito recente, já se pode com certeza autoavaliar. Em três palavras, como se classificaria?
Sou expressionista. Sou descontraída. E sou livre.

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